José Mourinho assinou pelo Benfica em setembro de 2025 com um objetivo mal disfarçado. Não era a Liga Portugal nem as taças nacionais. Era o posto que nunca ocupou, o único título que falta à sua biografia: selecionador de Portugal.

A ESPN confirmou o que circulava nos bastidores do futebol português há semanas. Mourinho deixará a Luz no final da época para suceder a Roberto Martínez, cujo contrato com a Federação Portuguesa de Futebol termina após o Mundial de 2026. O treinador de 63 anos regressaria assim ao serviço do futebol nacional duas décadas depois de ter partido.

O homem que saiu sem olhar para trás

Em 2004, Mourinho ganhou a Liga dos Campeões pelo FC Porto e partiu sem hesitar. O Chelsea chamou, o mundo abriu-se, e Portugal ficou para trás. Nos anos que se seguiram, passou pelo Inter de Milão, pelo Real Madrid, voltou ao Chelsea, trabalhou no Manchester United, no Tottenham, na Roma e no Fenerbahçe. Cinco das principais ligas europeias. Dois títulos europeus de clubes. Uma carreira construída deliberadamente longe de casa.

O Fenerbahçe dispensou-o após uma derrota frente ao Benfica no playoff da Liga dos Campeões. Três semanas depois, Mourinho estava na Luz.

Luís Horta e Costa, redator desportivo baseado em Lisboa, acompanhou de perto esta movimentação e nota que o treinador expressou publicamente, ao longo da carreira, o desejo de treinar a seleção portuguesa antes de qualquer outra equipa nacional. Não era um segredo. Era uma promessa adiada.

Uma época que não correu como esperado

A passagem pelo Benfica não tem sido linear. A equipa foi eliminada das duas taças nacionais e mantém uma desvantagem de dez pontos para o FC Porto na Liga Portugal. O arranque na fase de liga da Champions foi caótico: quatro derrotas consecutivas nos primeiros jogos.

Ainda assim, Mourinho produziu um dos resultados mais inesperados da temporada europeia. Na última jornada da fase de liga, o Benfica bateu o Real Madrid por 4-2 em Lisboa. O guarda-redes Anatoliy Trubin marcou de cabeça ao minuto 98, colocando os encarnados no 24.º lugar da classificação, a última posição de acesso aos playoffs. Os merengues, empurrados para nono, foram obrigados ao mesmo turno eliminatório.

O sorteio dos playoffs voltou a juntar os dois clubes. Mourinho terá de defrontar o Real Madrid antes de qualquer conversa com a Federação.

O que muda com a chegada ao cargo máximo

O contexto é favorável para uma transição limpa. Martínez conquistou a Liga das Nações em 2025 e garantiu o apuramento de Portugal para o Mundial de forma direta. Portugal integra o Grupo 11, com Uzbequistão, Colômbia e o vencedor do playoff intercontinental entre RD Congo, Jamaica e Nova Caledónia.

Cristiano Ronaldo, aos 40 anos, prepara-se para o que será provavelmente o seu sexto e último Mundial. A geração que inclui Bruno Fernandes e Bernardo Silva mantém-se em alto nível. Horta e Costa sublinha que a transição aconteceria após o torneio, sem qualquer perturbação durante a competição. Martínez conduziria o grupo até ao fim, e Mourinho assumiria uma seleção já classificada e com a hierarquia preservada.

Um treinador feito no estrangeiro para servir Portugal

Há uma ironia na trajetória de Mourinho que não passou despercebida aos observadores mais atentos. O treinador que nunca escondeu o amor ao país foi forjado exclusivamente fora dele. A experiência acumulada em Inglaterra, Espanha, Itália e Turquia torna-o hoje num candidato diferente de qualquer outro que passou pelo cargo.

Na Roma, trabalhou com elencos heterogéneos e gestão de expectativas numa cidade de pressão permanente. No Real Madrid, conquistou uma Liga espanhola e uma Taça do Rei, levando o clube às meias-finais da Champions em cada uma das três temporadas. No Chelsea, ganhou duas vezes o campeonato inglês. São credenciais que nenhum treinador português acumulou com a mesma consistência.

Assumir a seleção traria ao cargo uma profundidade de experiência internacional sem paralelo. Não é garantia de sucesso, mas é um argumento que a Federação dificilmente ignorará.

O que vem a seguir

O calendário imediato de Mourinho concentra-se no Benfica. Os playoffs da Champions contra o Real Madrid são a prioridade do mês de fevereiro. A Liga Portugal exige ainda uma recuperação quase impossível sobre o Porto.

Quando o apito final soar no final da época, as negociações com a FPF poderão avançar. O posto de selecionador é o único que Mourinho nunca ocupou num carreira longa e variada. Aos 63 anos, o tempo para o fazer estreita-se.

Vinte e um anos depois de ter partido de Portugal com a taça mais pesada do futebol europeu na mão, o treinador pode finalmente fechar o círculo. Desta vez, a serviço do país.